quinta-feira, 6 de abril de 2017

Unity e dependência de “decisões proprietárias”

Ciclos de interesse pelo Knoppix, Kurumin, Ubuntu e Linux Mint, até o final de 2016

Usuário renitente do KDE, desde os primeiros passos no Linux, — à época do digno encerramento do Kurumin, — o anúncio oficial de que a Canonical vai abortar seu investimento no Unity8 parece não me fazer mossa.

Mas é um alerta para intensificar as experiências fora do universo “Ubuntu & derivados”.

Fugir da dependência de “decisões proprietárias” é uma das lições mais permanentes que a evolução da informática tem oferecido, reiteradas vezes, — empresas fecham, descontinuam projetos, ou os vendem (livram-se deles), ou são vendidas, e ótimos sistemas e aplicativos são desfigurados ou descontinuados.

Na memória estritamente pessoal, — cada um tem a sua, — poderia elencar a extinção do DR-DOS (Digital Research), do Ventura Publisher (Xerox), dificuldades à migração DOS / Windows de bons aplicativos antigos (como o dBase, entre outros). Nem precisaria citar a guerra desproporcional contra o Netscape (uma entre inúmeras). No mundo empresarial, nem sempre “vence o melhor”. Sói vencer o mais rapaz.

Felizmente, cedo aprendi a fazer mais do que meros backups em “formato proprietário”, — fazer backups em DIF (Data Interchange Format), por exemplo, de preferência em ASCII. — Hoje diria .CSV, plain-text, UTF8, Unicode. Nem foram ideias “minhas”; no máximo, bebi em boas fontes, antes que fosse tarde. Em grande parte, têm sido as tendências da comunidade de código-aberto, desde então.

Mas, nem sempre. Talvez publicações “em papel” estejam fadadas a desaparecer, — na cabeça dos “desenvolvedores”, quem sabe. — A depender do formato “.sla” do Scribus, por força permanecerão “desaparecidas” do meu trabalho. Por que, com mil cabritos, investiria na produção de arquivos “opacos”? É trabalhar para acumular algo que… nunca me pertencerá.

Os efeitos dessa “dependência”, portanto, vão muito além da mera “submissão financeira”, — taxas de servidão anual (até por “migração” forçada, sem que você precise de “nova versão”), — na medida em que afetem seu “estoque” de trabalho acumulado em arquivos digitais sob “formato proprietário”, bem como seu “estoque” de capacitações (aprendizado, treinamento).

Se, para uma empresa de grande porte, uma súbita “decisão proprietária” (externa a ela) já pode significar custos consideráveis, para um usuário doméstico pode ser quase um desastre, — em especial, se “informática” não for sua praia, mas apenas ferramenta, e se lhe coloque o dilema de parar todo o seu trabalho, para procurar alternativas (encontrará?), aprender, refazer rotinas de trabalho, — ou contratar uma consultoria, que não estava prevista no orçamento.

Por isso, a dependência da Canonical já vinha incomodando, — em especial, à vista de reiteradas dissensões com as “comunidades”, divergências de rumos etc.

Um breve resumo foi dado por Swapnil Bhartiya, em “6 things Mark Shuttleworth should do as CEO of Canonical”:

Canonical e Shuttleworth têm uma longa história de membros perturbadores da comunidade de código aberto:
  • o Unity foi criado porque a Canonical não podia trabalhar com o Gnome;
  • Banshee foi expulso do Ubuntu porque a Canonical queria fazer um corte de vendas;
  • Houve uma disputa entre Canonical e Linux Mint sobre taxas de licença;
  • O fundador do Kubuntu foi expulso de seu próprio projeto;
  • Houve uma batalha desagradável dentro da comunidade Debian sobre o uso de systemd vs Upstart;
  • Mir foi anunciado com críticas pesadas das comunidades Wayland e Xorg.
Você pode ver que há uma lista muito longa de confrontos entre a Canonical e outras comunidades de código aberto.

No original:

Give respect to earn it: You can’t expect a community to include features that you need if you are not seen as a good citizen. Canonical and Shuttleworth have a long history of upsetting members of the open source community: Unity was created because Canonical couldn’t work with Gnome; Banshee was kicked out of Ubuntu because Canonical wanted to take a cut of sales; there was a dispute between Canonical and Linux Mint over licence fees; the founder of Kubuntu was kicked out of his own project; there was a nasty battle within the Debian community over the use of systemd vs Upstart; Mir was announced with heavy criticism from the Wayland and Xorg communities. You can see there is a very long list of confrontations between Canonical and other open source communities.

Naturalmente, são receios de usuário apenas familiarizado com o básico, — que não afetam experts capazes de montar e desmontar seu próprio Linux em maior ou menor grau.

Histórico


Funcionalidades já obtidas (pessoalmente), com diferentes sistemas Linux instalados

Durante vários anos, congelei o velho Windows XP e investi no Linux, até conseguir realizar todo o trabalho no Kubuntu e no Linux Mint (não no Debian), e essas 2 ferramentas implicavam na dependência de “decisões proprietárias” da Canonical.

Como essas, anunciadas agora, — ou as decisões anteriores, agora abandonadas de súbito.

O surgimento do KDE Neon, — fora do controle direto da Canonical, — acena com alguma perspectiva de independência, como se viu na adoção do Calamares, em Janeiro de 2017. Permite sonhar que nem todas as “decisões proprietárias”, que a Canonical possa adotar, venham a ser passivamente repassadas ao usuário do KDE Neon.

Mas, para quem, após 10 anos, ainda não conseguiu domar o Debian, é auspicioso conseguir bons resultados com o Mageia 6 sta2 e com o openSUSE, — praticamente “de fábrica”, dado meu despreparo para alterar muita coisa, — sem interromper o trabalho (nem a diversão) para mergulhar em estudos aprofundados da estrutura do Linux.

WTF Canonical?


Não engatinhei nem aprendi a andar em inglês. — Tampouco, jamais aprendi coisa alguma, lendo “definições”. — E parece que apenas sigo o mundo, onde “manuais” conceituais acabaram substituídos por “métodos” realistas (exceto no portal Debian).

Empresas passam, fica a humanidade, — o lápis, o papel, o alfabeto, felizmente (ainda) livres de copyright, licenças, juramentos de fidelidade às imposições “patrióticas” do Department of Commerce. Patrióticas de quem, cara-pálida?

De um ponto de vista muito pessoal, — ou deveríamos dizer, “muito profissional?, — “Canonical” é apenas o “X” de uma questão “Canonical vs. Redirets”. E deixemos de lado o “direito canônico”, que aqui não vem ao caso.

Durante muitos anos, li dizer que a Canonical teria impulsionado a expansão, difusão e aceitação do Linux dappertutto, — nem vou negar, credo quia absurdum, — e, até mesmo, que o Debian (esse “ingrato”) lhe deveria algo por isso.

Olhando apenas o “interesse” (consultas), ao longo dos anos, — e lembrando que, “lá no início” (do Distrowatch, 2002) mantinham-se no topo Mandrake (1º), Red Hat (2º), Gentoo (3º), Debian (4º), SuSE (6º), Slackware (7º), — o Debian (agora em 2º) tinha pouco a ganhar. Mas, por mérito de quem?

Com certeza, não dá para atribuir à Canonical as atuais posições do openSUSE (4º), Fedora (6º) + CentOS (9º), Mageia (12º), — muito menos as do Arch (10º) + Manjaro (5º) + Antergos (16º). — A própria “queda” do Slackware (17º), seria bem menor, caso todos os “derivados” Ubuntu fossem agrupados no 1º lugar, liberando posições no ranking.

Na verdade, deveríamos atribuir ao Ubuntu (3º) a posição do Mint (1º), — e eliminar do ranking dúzias de “sabores” e “derivados” do Ubuntu (Zorin 7º, Deepin 11º, Elementary 8º, Ubuntu MATE 14º, LXLE 18º, Lite 19º, Lubuntu 20º etc.).

É verdade que isso jogaria o Ubuntu, — somados “sabores” e “derivados”, — disparado, no topo do mundo, bem acima do Mint (1º). Aliás, o Mint desapareceria, somado ao Ubuntu.

Mas, feito esse expurgo, — e somados, igualmente, Manjaro + Arch + Antergos, por exemplo, — ficaria muito complicado pretender que o Debian devesse tanto ao Ubuntu.

Ali estariam, de um modo geral, os velhos “troncos”, — além do Arch, mais “novo” (e do Slackware, que subiria bastante), — e dificilmente se poderia pretender que apenas o Debian devesse ao paternalismo da Canonical sua persistência no topo, com os demais “troncos”.

— … • … —

Não-debians


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